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Desordem sem progresso

Desordem sem progresso

Me pergunto se todos tem noção da importância simbólica do dia de hoje.

No momento em que se deve votar no congresso a possibilidade de voltar para o voto impresso, ou seja, momento em que a nação, faz uso do seu extremamente frágil sistema democrático para rever o próprio conceito da participação do povo à vida administrativa, econômica e social do país, o presidente da república coloca blindados para desfilar em frente aos ministérios e ao próprio palácio do congresso nacional.

No momento em que se quer confirmar se mantém ou regride o “Progresso”, permitindo à voz da população acompanhar tendências de evolução do mundo moderno, vem a “Ordem” ameaçar calar-lhe violentamente a boca.

Isso nos mostra mais uma vez que o Brasil sabia, desde sua constituição, como seria sua historia, qual seria a trama da sua evolução, tanto o sabia que a escancarou na sua bandeira, para o mundo inteiro ver, talvez com a certeza coletivamente inconsciente de que os que vivem aqui não enxergariam. Está escrito em verde sobre amarelo, “ordem e progresso”, dentro do azul do céu da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.

Mas todos nos falhamos em entender.

E há um motivo para isso, esse que nos lembra que somos todos humanos, e a sabedoria popular nos aponta constantemente para nosso erro, sem que entendamos. Está na boca de todos os vovós e pseudo filósofos: “vocês nunca tiveram uma guerra”.

Pois é…. Guerra de secessão norte americana, revolução francesa e outras bolcheviques ou bolivarianas mostram claramente que não há progresso sem desordem.

Ordem e Progresso não são companheiros, um é a sombra do outro.

E muito mais nos clama essa voz da bandeira que não temos ouvidos para ouvir.

As cores foram mantidas da anterior, o verde da casa de Bragança, o ouro da casa de Habsburgo e o azul do brasão de armas símbolo do império. Ou seja, todas as vezes que cantam o hino nacional, com a mão no peito, em prova de amor e deferência à sua nação, as crianças no início do expediente escolar ou todos os torcedores antes do culto dos deuses da bola redonda, o fazem, olhando fixamente, mas sem enxergar, o símbolo de que é realmente seu pais: a sobra de um império militarmente imposto às populações autóctones, forçosamente, contra a sua vontade.

Olhamos e não enxergamos e isso é muito relevante.

Entender porquê é muito importante para podermos, sim entregarmo-nos ao processo do progresso que traz a ordem de verdade.

Olhamos para aquilo que todos nos sabemos que é a verdade nua e crua, vemos todos os dias, na rua e nos noticiários, a constante violência da sociedade brasileira expressa pela pobreza, sujeira e outras discriminações de minorias, mas preferimos viver o mito da nação amorosa, mais “cristã do mundo” e orgulhosa das suas paradas de acolhimento às diferenças.

Está selado na bandeira, a realeza, o império e as armas, mas escolhemos viver o mito do Brasil, dessas nossas verdes matas e cachoeiras e cascatas de colorido sutil e deste lindo céu azul de anil. Olhamos para a persona coletiva do pais, nos apegamos a ela ao ponto de cantar-lhe serenatas, imortalizá-la em poemas e filmes, de sofrer por ela e chorar em estádio, mas sem nunca enxergar a sua real essência, a verdade que vive no seu inconsciente, a dinâmica das suas emoções mais profundas. Amamos a sua cara mas não queremos sentir suas dores, tal como o “estranho o Cristo do Rio que olha tão longe, além, com os braços sempre abertos, mas sem proteger ninguém. Jung ensina que isso tudo se deve ao fenômeno da projeção.


Quando existem em nos, questões afetivas com as quais não conseguimos lidar, muitas vezes por não termos força ou equilíbrio emocional para isso, e que esses assuntos ainda são muito amedrontadores ou dolorosos, nos nos apegamos à imagens que os representam. Olhamos para símbolos de todas essas vontades, todos esses desejos e dores que tem uma intensidade com a qual tememos ter que nos deparar em nossa intimidade. Ou seja, nos fascinamos por imagens de fora porque não conseguimos olhar para dentro de nos, como uma forma de não esquecer a sujeira emocional que nossa saudável necessidade de bem estar jogou para debaixo do tapete do inconsciente. E quando esses mecanismos encontram sintonia com outros indivíduos, acontecem fenômenos de comportamento de massa como desordem de torcedores de futebol, ou loucura coletiva de “groupies” de artistas famosos, mas também como alienação à cultos religiosos ou fanatismo político. há, por traz de toda movimentação de massa, uma tendência, uma vontade arcaica individual que acha uma forma de se expressar agrupando-se, entrando na onda de quem já a botou para fora.


Essa relação aparentemente absurda de amor incondicionalmente sofrido que um grupo de adolescentes pode expressar para um artista, tanto quanto a relação insana da torcida com seu time do coração é muito interessante e nos mostra que a intensidade dessa relação afetiva é inversamente proporcional à capacidade de raciocinar a relação. Isso porque, como o disse o Jung, a aquisição da consciência é um evento recente na evolução da humanidade e “a parte de baixo” (do cérebro viu…) que lida com instintos e afetos, muitas vezes ainda é mais poderosa que “a parte de cima” que nos confere a habilidade da razão. Quando um indivíduo sente a necessidade de resolver dores ou dificuldades internas, um dos caminhos possíveis é a análise onde se obrigará a olhar para dentro, para poder entender o que botou para fora.

Um dos princípios da análise é, após enxergar os mecanismos, procurar desconstruir crenças e destruir padrões negativos para poder reconstruir uma base de vida mais sólida, mais de acordo com uma nova perspectiva de vida e visão do mundo. Tudo passa em primeiro lugar pela observação, pois não há como botar ordem onde não se enxerga a desordem.

A bandeira, como todo símbolo nos mostra o que gostaríamos de ser para que possamos olhar para aquilo que realmente somos.

E se ainda olhamos, fascinados para a ela e seu leme de ordem e progressos e nos encantamos pelas suas cores, se ainda dissemos, cantamos, gritamos o quanto amamos esse país tão desigual e violento, sem enxergar suas dores e caos e não sentimos necessidade de trocá-la é porque ainda não entendemos o seu símbolo e o recado que ela precisa nos dar sobre nossa intimidade coletiva.

Se eu citei Martinho da Vila e Cazuza, a solução talvez se encontre em Ary barroso:

“Abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o Rei Congo no congado
Canta de novo o trovador
A merencória à luz da Lua
Toda canção do seu amor
Quero ver essa dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado”

É preciso olhar para o passado para poder ver como se encontra o presente se a gente quer ter uma chance de futuro.


E é preciso coragem para querer enxergar no Brasil sua desordem e falta de progresso para poder pintar em todas as suas ruas e paredes uma aquarela brasileira com pigmentos de esperança. E nessa hora, não faz mal querer olhar para os livros de historia e lembrar que essa frase tão importante e tão comum para todos nos, veio do lema do positivismo de Auguste Comte “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim.


Mas o principio de todas as coisas foi deixado de lado, só foi estampado na bandeira os símbolos do poder e da ganancia e como novamente Jung ensinou, onde impera o poder, não há espaço para o amor. Certamente por isso o mote foi truncado, para que nos lembremos que apesar de gostar de gritar alto a serenata à amizade universal, temos sede, vontade de poder e que para o amor não estamos coletivamente preparados.

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